Mato Grosso atravessa uma crise brutal: a violência contra a mulher. Todos os dias, mulheres são ameaçadas, agredidas, e mortas simplesmente por serem mulheres. Isso não pode continuar assim.
O feminicídio, crime hediondo tipificado em nossa legislação, é a expressão máxima da desigualdade de gênero e da cultura machista que ainda impera na sociedade. Diante de estatísticas que só aumentam, é preciso gritar: basta! Não podemos aceitar que o lar, que deveria ser um espaço de proteção, torne-se o principal palco de execuções.
Para entendermos a gravidade do problema, basta olhar para os números. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados em março de 2026, apontam que, a cada seis horas uma mulher foi morta no ano de 2025 simplesmente pelo fato de ser mulher; ou seja, quatro mulheres são assassinadas por dia por razões de gênero e coloca o Brasil como um dos países que mais mulheres são mortas no mundo; 14 mulheres são agredidas a cada minuto no país.
Em muitos casos, os assassinos são companheiros ou ex-companheiros, movidos por um sentimento de posse que não suporta o fim do relacionamento ou a simples autonomia feminina. Esses dados não são apenas estatísticas; são vidas interrompidas, famílias destruídas e uma sociedade inteira adoecida pela banalização da violência.
Parte desse problema reside na perpetuação de estereótipos e na romantização de relações abusivas. Durante séculos, ensinou-se às mulheres que ciúmes é sinônimo de amor e que perdoar é uma obrigação. Essa educação sentimental nociva impede que muitas vítimas identifiquem os primeiros sinais de um relacionamento perigoso. Enquanto a sociedade tratar a violência doméstica como "briga de marido e mulher" ou "problema de família", estaremos protegendo agressores e culpabilizando as vítimas.
A solução, portanto, não se resume apenas a punições mais duras, embora estas sejam fundamentais. Precisamos de políticas públicas integradas, que envolvam educação nas escolas para desconstruir o machismo, acolhimento digno para as vítimas, delegacias especializadas funcionando 24 horas, leis mais rígidas, envolvimento de todos os setores (instituições, mídia, judiciário) da sociedade para o combate efetivo de violência contra a mulher. A Lei Maria da Penha é um avanço, mas ela só funciona se o Estado oferecer estrutura para aplicá-la e se a sociedade fizer sua parte, denunciando e não se calando diante da violência.
Ao longo dos últimos sete anos, o governo de Mato Grosso implementou uma série de ações para fortalecer o enfrentamento à violência contra as mulheres no Estado, envolvendo iniciativas que não estão apenas na repressão aos crimes, mas também na prevenção e repressão a esses casos, como a criação do Gabinete de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres; criação da Coordenadoria de Políticas de Enfrentamento à Violência de Gênero; criação da Secretaria Adjunta de Políticas Públicas para as Mulheres; criação da Sala Lilás; criação da Casa de Eurídice; implantação do Plantão 24 Horas de Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica e Sexual; implantação do Botão do Pânico e do aplicativo SOS Mulher; ampliação da Patrulha Maria da Penha; ampliação do número de delegacias e núcleos especializados; implantação do programa SER Família Mulher; implantação do programa SER Família Mulher na Comunidade; ampliação da rede de proteção e monitoramento eletrônico dos agressores; implantação na grade curricular do "combate à violência doméstica" de forma interdisciplinar no ensino médio das escolas estaduais; entre outros.
Apesar dessas medidas, não podemos mais aceitar discursos que minimizam a dor das mulheres ou que tentam justificar o injustificável. A luta contra esse crime é também de nós homens e de toda a sociedade. E o primeiro passo é reconhecer que o problema existe e que ele nos envergonha. Que possamos, juntos, construir um país onde as mulheres não precisem temer por suas vidas dentro de suas próprias casas. O basta precisa ser dito hoje, amanhã e sempre.
*Allan Kardec Pinto Acosta Benitez é secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso, presidente nacional do Conselho Nacional de Secretários de Estado para Assuntos de Ciência, Tecnologia e Inovação, mestre e doutor pela UFMT, membro da Academia Mato-grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Gro